__________________________________________________________________________________________________________ Hostil à Inteligência

BERILO NEVES Jornalista - Artigo publicado no jornal O GLOBO em 01/01/2003 __________________________________________________________________________________________________________
O Rio é uma cidade surda. É também, uma cidade rouca. É uma cidade do barulho, no sentido próprio e no figurado.

Não poderia ser de outra forma. Em ruas, casas, apartamentos, restaurantes, botequins, qualquer um é livre para produzir todos os ruídos que quiser. Pode abrir a janela e gritar até perder a voz; debruçar-se sobre a buzina do carro até esgotar a bateria; reunir os amigos para um churrasco no terraço - ou na varanda - e ouvir pagode e ópera, alta madrugada, até ensurdecer o quarteirão; martelar, serrar, soltar fogos, estalar o chicote a qualquer hora do dia ou da noite; cantar na rua ressaltando a desafinação com um alto-falante. Tudo lhe será permitido, como parte da bagagem constitucional de direitos individuais inalienáveis.

Assim, aos gritos e golpes de marreta - e com a ajuda desinteressada de representantes locais livremente eleitos pelo voto - a grande metrópole carioca tornou-se o paraíso da mais absoluta liberdade sonora. Só é um inferno para aqueles que violam essa convenção informal de permissividade coletiva e fazem questão de dormir, ler, estudar, conversar, ver um filme em casa humanamente. Esses eternos deslocados constituem uma minoria verdadeiramente silenciosa - tão silenciosa que jamais será ouvida ou levada em conta.

Na prática, não existem mecanismos sociais de controle de som, ou instrumentos legais para obrigar alguém a baixar o volume. Nesse particular pelo menos, os códigos de conduta, as normas de etiqueta, pertencem à nossa pré-história. Pior do que isso: foram invertidos. Pedir a alguém que faça menos barulho, por favor, passou a ser insulto de extrema gravidade. Justifica qualquer reação violenta. E quem se atreve a cometer essa afronta aos costumes liberais modernos fica malvisto e expõe-se a abusos.


A vitima de um ataque sonoro logo se dará conta de que está desprotegida: Não pode contar com a ajuda do poder público. Se ligar para o 190, ouvirá algo assim: "Dê seu nome e endereço, para mandarmos uma viatura. Os policiais acompanharão o senhor para tentar resolver isso da melhor maneira", dirá a telefonista. Mesmo acompanhado por uma guarnição da Polícia Militar, bem armada e apta a lidar com indivíduos irascíveis em situações extremas, pode não ser boa idéia. Lembre-se, quem está procurando encrenca é você e não o vizinho barulhento. Ele quer apenas se divertir. Além disso, um diálogo com uma fonte de barulho tende a ser um monólogo, onde ela esbraveja e você fica surdo e é melhor que também fique mudo.

Se tentar uma abordagem mais leve, e pedir ajuda à Polícia Civil, será orientado a procurar o Disque-Barulho, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Ali será gentilmente informado de que o Disque-Barulho só atende a denúncias relativas a pontos fixos. Se o seu vizinho for móvel, além de barulhento, não se qualifica.

Dizia Schopenhauer - com aquela argúcia e sabedoria dos filósofos que, dispensam a banalidade da comprovação científica - que a tolerância ao barulho está na razão inversa do tamanho da inteligência. Quanto mais tapado, mais indiferente ao ruído. Para o indivíduo inteligente, o estalar de um chicote distante é sempre uma chicotada na própria carne. Porque a violência sonora interrompe rudemente aquele constante monólogo interior que Shakespeare chamava memoravelmente de sweet silent tought, o suave e silencioso ato de pensar.

Se o teorema do grande pensador alemão vale não só para indivíduos, mas também para comunidades e povos, pobres de nós. Está tudo explicado.



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