O primeiro relato de epidemia de dengue surgiu em 1779-1780 na Ásia, África e América do Norte. O aparecimento quase simultâneo nos três continentes indicava que este virus e seu mosquito vetor tinham distribuição mundial generalizada nos trópicos. Durante quase 200 anos a febre da dengue foi considerada benigna e não fatal para os visitantes dos trópicos. Geralmente, havia longos intervalos (10-40 anos) entre os grandes surtos epidêmicos, principalmente porque o virus e seu mosquito vetor somente podiam ser transportados aos grandes centros populacionais por meio de navios.
Uma pandemia global de dengue teve início no Sudeste da Ásia depois da 2 ª Guerra Mundial e intensificou-se durante os últimos 15 anos. As epidemias causadas por múltiplos sorotipos (hiperendemicidade) tornaram-se mais freqüentes, a distribuição do virus da dengue e dos mosquitos vetores expandiu-se, e a dengue hemorrágica apareceu nas regiões do Pacífico e das Américas. A dengue hemorrágica epidêmica surgiu inicialmente no Sudeste da Ásia, durante os anos 50, mas em 1975 tornou-se a principal causa de hospitalização e morte entre crianças em muitos paises daquela região.
Nos anos 80, teve início uma segunda expansão da dengue hemorrágica na Ásia, quando o Sri Lanka, a Índia e as Ilhas Valdívias sofreram o primeiro surto epidêmico. O Paquistão registrou o primeiro surto epidêmico de dengue em 1994. Os recentes surtos epidêmicos no Sri Lanka e na Índia estavam associados a múltiplos virus sorotipos da dengue, mas o DEN-3 era o predominante e geneticamente distinto dos virus DEN-3 previamente isolados de pessoas infectadas naqueles paises. Depois de uma ausência de 35 anos a febre epidêmica da dengue surgiu em Taiwan e na China, durante os anos 80. A China sofreu uma série de epidemias causadas por todos os quatro sorotipos conhecidos, e a primeira grande epidemia de dengue hemorrágica causada pelo DEN-2 foi relatada na ilha de Hainan, em 1985. Cingapura também apresentou recorrências de dengue hemorrágica epidêmica de 1990 a 1994 depois de um bem sucedido programa de controle ter evitado por mais de 20 anos qualquer transmissão significativa da doença. Em outros paises da Ásia onde a dengue hemorrágica é endêmica, as epidemias têm se tornado gradativamente maiores nos últimos 15 anos.
No Pacífico, o virus da dengue reapareceu no início dos anos 70 depois de uma ausência de mais de 25 anos. A atividade epidêmica causada por todos os quatro sorotipos intensificou-se nos últimos anos com epidemias de dengue hemorrágica em várias ilhas.
Apesar do acompanhamento deficiente da dengue na África, a febre epidêmica causada por todos os quatro sorotipos aumentou extraordinariamente desde os anos 80. A maioria dos casos ocorreu no Leste da África, e as principais epidemias foram relatadas nas Ilhas Seichelles (1977), no Quenia (1982, DEN-2), em Moçambique (1985, DEN-3), Djibuti (1991-92, DEN-2), na Somalia (1982, 1993, DEN-2) e na Arábia Saudita (1194, DEN-2). Epidemias de dengue hemorrágica não foram relatadas na África nem no Oriente Médio, porém casos esporádicos clinicamente compatíveis com a dengue hemorrágica foram relatados em Moçambique, Djibuti e Arábia Saudita.
O surgimento da dengue hemorrágica como um grave problema de saúde pública foi mais surpreendente na região americana. Em um esforço para evitar a febre amarela urbana, que também é transmitida pelo Aedes Aegypti, a Organização Pananamericana de Saúde organizou, nas décadas de 50 e 60, uma campanha para erradicar o mosquito da maior parte dos países da América Central e do Sul. Como resultado disso, a dengue epidêmica somente ocorreu esporadicamente em algumas ilhas do Caribe durante o período. O programa de erradicação do Aedes Aegypti que fora oficialmente interrompido em 1970 nos EUA, foi também relaxado em outros paises, e o mosquito começou a reinfestar paises dos quais já havia sido erradicado. Assim, em 1997, a distribuição geográfica do Aedes Aegypti tornou-se mais ampla do que a distribuição existente antes do programa de erradicação.
Em 1970, apenas o virus DEN-2 era encontrado nas Américas, embora o DEN-3 possa ter tido uma distribuição focal na Colômbia e Porto Rico. Em 1977, o DEN-1 foi introduzido na região e causou graves epidemias em toda a região durante um período de 16 anos. O DEN-4 foi introduzido em 1981 e causou epidemias igualmente muito difundidas. Ainda em 1982 um novo tipo de DEN-2 originário do Sudeste da Ásia causou a primeira epidemia de dengue hemorrágica nas Américas (Cuba). Esta espécie espalhou-se rapidamente pela região e causou surtos de dengue hemorrágica na Venezuela, Colômbia, Brasil, Guiana Francesa, Suriname e Porto Rico. Em 1977, 18 paises da região americana haviam relatado casos confirmados de dengue hemorrágica, que agora é endêmica na maioria daqueles paises.
Os dados de seqüência genética do envelope viral da espécie DEN-3 isolados dos virus colhidos no Panamá e na Nicarágua mostram que esta nova espécie americana do virus DEN-3 foi provavelmente uma recente introdução vinda da Ásia, pois é, geneticamente distinta da espécie DEN-3 encontrada nas Américas, mas é idêntica ao sorotipo virus DEN-3 que causou graves epidemias de dengue hemorrágica no Sri Lanka e na Índia, nos anos 80. Conforme sugerem a descoberta de uma nova espécie de DEN-3, e a suscetibilidade da população da América tropical a ela, o rápido espalhamento do DEN-3 causou as principais epidemias de dengue hemorrágica na América Central em 1995.
Em 1997, a dengue é a principal doença virótica causada por mosquitos que afeta o homem. A sua distribuição global é comparável a da malária, e uma população estimada em 2,5 bilhões de pessoas vive em áreas de risco suscetíveis à transmissão epidêmica. A cada ano ocorrem 10 milhões de casos de dengue e, dependendo do ano, até centenas de milhares de casos de dengue hemorrágica. A taxa de casos fatais na maioria dos paises é de 5%. A maioria das mortes ocorre em crianças e adultos jovens.
As razões para este espantoso surgimento da dengue hemorrágica como um dos principais problemas globais de saúde pública são complexas e não muito bem compreendidas. No entanto, vários fatores importantes podem ser identificados. Primeiro, não existe o controle efetivo do mosquito em muitos paises com histórico endêmico de dengue. Ênfase considerável foi dada à borrifação com volumes ultra baixos de inseticidas destinados ao controle do mosquito adulto durante os últimos vinte anos, uma abordagem relativamente ineficaz para o controle do Aedes Aegypti. Segundo, a ocorrência de mudanças demográficas globais, a mais importante das quais é a urbanização descontrolada acompanhada do crescimento populacional. Estas mudanças demográficas resultaram em moradias abaixo de padrões aceitáveis e em sistemas inadequados de água, esgotos e deposição de lixo, todos eles contribuindo para o aumento da densidade populacional do Aedes Aegypti facilitando a transmissão das doenças que ele carrega. Terceiro, o aumento de viagens aéreas proporcionou o mecanismo ideal para a rápida disseminação do virus da dengue nos grandes centros populacionais dos trópicos. Finalmente, na maioria dos países a infra-estrutura de saúde pública está deteriorada. Recursos humanos e financeiros limitados e a competição entre prioridades resultaram numa "crise de mentalidade" que deu origem aos chamados métodos emergenciais de controle em resposta às epidemias.
Perspectivas Futuras
Não existe vacina para a dengue. Recentemente, no entanto, possíveis vacinas com virus atenuados foram desenvolvidas na Tailândia. Estas vacinas são seguras e imunogênicas quando aplicadas segundo diversas fórmulas, inclusive uma quadrivalente para todos os quatro sorotipos de virus da dengue. As pesquisas estão sendo conduzidas para desenvolver vacinas de virus recombinantes de segunda geração. Os virus atenuados da Tailândia estão sendo usados em caráter experimental. Assim sendo, uma vacina de uso público eficiente para a dengue não estará disponível antes de cinco anos ou dez anos
As perspectivas para reverter esta tendência recente de aumento da atividade epidêmica e expansão geográfica da dengue não são promissoras. Novas espécies de virus da dengue e de sorotipos continuarão a ser introduzidas em muitas áreas onde a densidade populacional do Aedes Aegypti possui níveis elevados. Sem nenhuma nova técnica de controle do mosquito disponível nos últimos anos, as autoridades de saúde pública têm enfatizado a prevenção da doença e o controle do mosquito através dos esforços da comunidade para reduzir as fontes de criação de larvas. Embora esta medida possa ser eficiente a longo prazo é pouco provável conseguir-se um grande impacto em futuro próximo. Devemos, então, desenvolver sistemas de vigilância melhorados, auto-ativados, instalados em laboratórios, que possam fornecer um aviso antecipado de uma iminente epidemia de dengue. Ao menos, o resultado da vigilância poderá alertar a população para a tomada de precauções e aos médicos para diagnosticar e tratar adequadamente os casos de dengue hemorrágica.